A idade sem tempo…

Sirvo-me da canção da Mafalda Veiga não para banda sonora do dia que se celebra hoje, o Dia do Idoso, mas por se tratar de um tema que chama a atenção para a solidão e, infelizmente, para o estigma que alguns destes seres maravilhosos, que povoam os nossos jardins e demais espaços, ainda sofrem perante um mundo que se diz sem tempo.

Sempre gostei de falar com pessoas mais velhas, com mais idade, com rugas, idosas, como se queira chamar… o que é certo é o tanto de bom que elas têm para nos passar. Basta querermos.
Lembro-me sempre da Tia Maria, a vizinha da minha casa de infância, que completou os 100 anos na sua perfeita lucidez e com quem mantive, durante muitos anos,  longas e maravilhosas conversas. Aquela mulher linda, de olhos pequeninos, cabelos brancos e pele radiosa, era “a minha professora”… que se conseguia destacar das rugas e do tempo, que foi acumulando ao longo da sua vida e que fizeram a sua história. Só posso dizer que tenho saudades dela e da sua voz… 

Eu tenho a imensa felicidade de ter dois lindos avós e de conviver com outras pessoas de  bonitas e “redondas” idades, que possuem extraordinárias histórias de vida e que apenas precisam de atenção, não de compaixão, de afecto, de sorrisos e muito, muito AMOR.

Importa cuidar. A canção, essa tem de ser outra….

Velho – Mafalda Veiga

Parado e atento à raiva do silêncio
De um relógio partido e gasto pelo tempo
Estava um velho sentado no banco de um jardim
A recordar fragmentos do passado

Na telefonia tocava uma velha canção
E um jovem cantor falava na solidão
Que sabes tu do canto de estar só assim
Só e abandonado como o velho do jardim?

O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti prá não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim

Passam os dias e sentes que és um perdedor
Já não consegues saber o que tem ou não valor
O teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
Para dares lugar a outro no teu banco do jardim

O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti prá não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um resto de tudo o que existiu
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim

~ por Carla Sousa em Outubro 1, 2008.

3 Respostas to “A idade sem tempo…”

  1. Nada melhor no dia Internacional da Música e também dia Internacional das Pessoas Idosas (além de ser também dia mundial da água) do que um belo poema interpretado por um bela voz…
    Na verdade, as pessoas que se dizem sem tempo, só quando sofrem a perda é que dão o justo valor, mas aí já nada há a fazer, a não ser recordar!
    E quanto à Tia Maria, também eu me recordo da ternura e do carinho com que falavas nela. Lembro-me do seu centésimo aniverário e claro… da sua partida!
    Já não tenho avós, e recordo-me com saudade da sua imagem no banco do jardim ansiosos pela nossa chegada ao Domingo… até os olhos sorriam de alegria! :-)
    Tenho sim os meus pais na tão bonita idade dos 70… com ainda muito para dar e receber… :-)

    Para eles (e para todos os idosos deste mundo) um abracinho muitoooo apertadinho… cheio de carinho!;-)

  2. Tem toda a razão Alice, a maior parte das vezes esquecemo-nos do que é bom e o tempo somos nós que o fazemos.
    Os avós “AVÓS” naquele sentido que tinha quando eu era mais nova que eram: aquelas pessoas com cabelos brancos que tinham sempre beijos barulhentos e abraços apertados que quase partiam os ossos (que saudades desses abraços e beijos), e bolachas ou biscoitos de limão hmmm… pois é esses avós estão em vias de extinção… Quem ainda os tem aproveite para os amar incondicionalmente, que retribuam sem medo os carinhos que possam receber e acima de tudo que os respeitem como pessoas.

    Um beijinho Carla e fica bem.

  3. Li,

    resolvi dedicar este dia especialmente a estes seres maravilhosos, por serem tantas vezes esquecidos. Para além disso, a música é a rainha do meu blog… não precisa de um dia para ser comemorada.
    Já agora, beijocas para a família Machado. :)

    Cristina,

    que saudades dos biscoitos de limão, ou simplesmente de qualquer coisa doce, que eles sempre tinham guardada para nós, não era? Eu ainda tenho avós (o avô Nunes e a avó Alice) e aproveito para os mimar o mais que posso.
    Beijinhos, querida! :)

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