A alegria de nascer…

A minha magnólia

"Magnólia banhada de azul" - Março 2009

Primavera

“A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.”

Cecília Meireles in  “Cecília Meireles – Obra em Prosa”

~ por Carla Sousa em Março 20, 2009.

6 Respostas to “A alegria de nascer…”

  1. E cá está ela… Seja muito bem-vinda!

    Hmmmm… eu conheço essa magnólia de algum lado! Será?! :P

    • Conheces sim e muito bem! É a nossa magnólia… a Primavera “is all around”!
      Foi uma foto tirada esta semana pelo Luís. Achei que ficava linda neste post.

      Beijinhos*

  2. Sem dúvida!!! Não podia ser melhor escolha!
    Bjs*

  3. Vou aproveitar este Post sobre “a alegria de nascer” para vos relembrar (Não… o Kiko ainda não nasceu!), que havia um encontro prometido para o Início da Primavera :P

    E Ei-la… um pouco tímida afinal, mas sim, ela tá aí!

    Pensem no nosso rencontre…

    Bjs* primaveris

  4. Não podemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje… e por mim pode até ser só um cafezinho desde que haja muitos abracinhosssss… :$

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