A vida tem o dom de nos pôr à prova a qualquer instante…

Harold's Planet

(A vida…)

Inscrição

Quem se deleita em tornar minha vida impossível
por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe,
ó encoberto adversário!

Mas a minha paciência é mais firme
que todas as sanhas da sorte:
mais longa que a vida, mais clara
que a luz no horizonte.

Passeio no gume de estradas tão graves
que afligem o próprio inimigo.
A mim, que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?

Cecília Meireles

Boat Behind – Kings of Convenience

Esta música poderia ser a banda sonora perfeita de um dia feliz, de liberdade, sem compromissos… tudo aquilo que não tenho tido, mas que anseio muito.
Preciso recomeçar a ‘viver a vida’!

Boat BehindKings of Convenience

So we meet again after several years
Several years of separation
Moving on, moving around
Did we spend this time chasing the other’s tail

Singing Ohohohoh, I could never belong to you
Ohohohoh, I could never belong to you

Winter and Spring, Summer and Fall
You’re a wind surfer crossing the ocean I’m the boat behind
Skiffle and rags, shuffle and waltz
You’re the up tip toe ballerina I’m the chorus line:

Singing
Ohohohoh, I could never belong to you
Ohohohoh, I could never belong to you

River and sea, picking up salt
Through the air as a fluffy cloud falling down as rain.

Ohohohoh, I could never belong to you
Ohohohoh, I could never belong to you – oohooh
I could never belong to you -ooh ooh
I could never belong to you -ooh ooh

Banda sonora de uma época, que cruza gerações…

Capa cd ‘E Depois do Adeus’ – 2007

Foto @ IÉ – IÉ
Fernando Tordo c/ Tiago Bettencourt (* Obrigada à Maria pelo vídeo)

Escolhi “Cavalo à Solta” do Ary dos Santos, um poeta que para mim simboliza muito a revolução que nos deu a liberdade, numa versão de Fernando Tordo e Tiago Bettencourt.

Cavalo à Solta – Ary dos Santos
Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Minha laranja amarga e doce
minha espada,
poema feito de dois gumes
tudo ou nada.
Por ti renego, por ti aceito
este corcel que não sossego
à desfilada no meu peito.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

José Carlos Ary dos Santos

Como é maravilhoso sermos livres!

25 de Abril é um dia que gosto de festejar…

25 de Abril - 1974 - 2010

Foto @ IÉ-IÉ

Um contra o outro – Deolinda

Os Deolinda estão de volta com um novo trabalho, “Dois Selos e um Carimbo”, que será posto à venda no dia 26 de Abril. O novo single “Um contra o outro” já começou a rodar e o vídeo é um verdadeiro regalo. Quem não se lembra daqueles jogos e brinquedos, com os quais muitos de nós foram muito felizes, pelas ruas tranquilas das nossas aldeias, vilas ou cidades… quando brincar na rua ainda era possível? 🙂
Acho que faz falta um pouco desta alegria pela partilha e pela descoberta do outro, algo que tende a desaparecer nos dias que correm, em que parece que o isolamento e o confinamento levam a melhor.

Estou ansiosa por ouvir o álbum e, se possível, estar num dos próximos concertos.

Um contra o outro – Deolinda

Anda
Desliga o cabo
Que liga a vida
A esse jogo
Joga comigo
Um jogo novo
Com duas vidas
Um contra o outro

Já não basta esta luta contra o tempo
Este tempo que perdemos a tentar vencer alguém
E ao fim ao cabo
Que é dado como um ganho
Vai-se a ver desperdiçamos
Sem nada dar a ninguém

Anda
Faz uma pausa
Encosta o carro
Sai da corrida
Larga essa guerra
Que a tua meta
Está deste lado da tua vida

Muda de nível
Sai do estado invisível
Põe o modo compatível
Com a minha condição
Que a tua vida
É real e repetível
Dá-te mais que o impossível
Se me deres a tua mão

Sai de casa e vem comigo para a rua
Vem, que essa vida que tens
Por mais vidas que tu ganhes
É a tua que mais perde se não vens

Anda
Mostra o que vales
Tu nesse jogo
Vales tão pouco
Troca de vício
Por outro novo
Que o desafio
É corpo a corpo

Escolhe a alma
A estratégia que não falha
O lado forte da batalha
Põe no máximo que der
Dou-te a vantagem
Tu com tudo
E eu sem nada
Que mesmo assim desarmada
Vou-te ensinar a perder

Sai de casa e vem comigo para a rua
Vem, que essa vida que tens
Por mais vidas que tu tenhas
É a tua que mais perde se não vens

Obrigada pelo apoio…


(“Obrigada por serem tão simpáticos”) – Foto @ Twentythree

Regressar aos poucos…

A palavra solidão faz-me companhia…

Ando às avessas com o mundo (o meu pequeno mundo), com as minhas coisas, com a minha vida. Isso tem-se percebido aqui no blog, o lugar que melhor reflecte o meu estado de espírito. O silêncio dos últimos dias é exemplo disso. É sabido o valor que eu dou às palavras e, nesta fase da minha vida, preferi a ausência delas à força que algumas seguramente poderiam conter.
Quem me lê e quem me visita só me pode compreender.

O Limpa-palavras

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras, não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.
Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes um braço para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

Álvaro Magalhães in O limpa-palavras e outros poemas

A Strange kind of Love – Peter Murphy

Tive saudades desta música, ou talvez das memórias muito felizes que ela me traz. 🙂

A strange kind of love
A strange kind of feeling
Swims through your eyes
And like the doors
To a wide vast dominion
They open to your prize

This is no terror ground
Or place for the rage
No broken hearts
White wash lies
Just a taste for the truth
Perfect taste choice and meaning
A look into your eyes

Blind to the gemstone alone
A smile from a frown circles round
Should he stay or should he go
Let him shout a rage so strong
A rage that knows no right or wrong
And take a little piece of you

There is no middle ground
Or that’s how it seems
For us to walk or to take
Instead we tumble down
Either side left or right
To love or to hate

Dores de crescimento…


Foto @ Kari-shma

“It takes courage to grow up and become who you really are”
E.E. Cummings