Duas (doces) histórias de Natal…

Este ano passaremos a noite de Natal em casa da minha mãe ou, como se começou a dizer nos últimos tempos, nos vovós de R.🙂
Eu adoro a cozinha da minha mãe nesse dia, pela balbúrdia das pessoas que passam para deixar um miminho ou os votos de Feliz Natal, mas sobretudo por causa dos cheiros vários que acabam por se estender pela casa toda e que são uma delícia…  O momento alto do dia é a felicidade em poder observar a minha mãe a fazer filhoses, a sua receita de sempre, enquanto todos a rodeiam para as comer bem quentinhas, eu incluída, no momento em que elas saem da sertã para o pratinho de açúcar dourado que já as espera. É um deleite sem comparação! Acreditem que somente neste dia se abre esta excepção na cozinha da matriarca da família. Nos restantes, ninguém se chegue perto dos seus tachos, quando está a cozinhar. A custo, a malta tenta respeitar.😀
Qual é então o segredo, perguntam vocês. Nunca perguntei, nunca quis saber… acho que sempre preferi o encanto deste acto, mas acho que as filhoses têm o condão de adoçar o coração da minha mãe (que é a melhor mãe do mundo) e ela, sem saber, faz deste um dos meus mais lindos momentos de Natal, um daqueles que sei que nunca esquecerei. ♥IMG_4997

A Filhó Dourada

A história que vou contar chama-se “A Filhó Dourada”.
Douradas, muito douradinhas são elas todas, empilhadas na travessa, como um castelo por conquistar.
As últimas são as melhores. Têm mais açúcar, desfazem-se mal lhes tocamos… A gente pega delicadamente numa das que sobraram, dá-lhe um impulso que a ponha a deslizar na travessa, para ensopar bem e, num gesto rápido, sem pingar a toalha, mete-a na boca. O estalar dela, de encontro aos nossos dentes, é música com açúcar.
Naquela ceia de Natal, todos tinham comido filhós.
— Estão uma delícia — comentavam.
E, porque estavam uma delícia, não tinha sobrado senão uma, no fundo da travessa. Era uma ilha minúscula e redondinha, rodeada por um mar de açúcar. Todos os olhos fitavam a filhó, que estalava em reflexos de oiro. Uma tentação.
À roda da mesa, diziam para o avô:
— Só ficou uma filhó. Porque é que a não come?
O avô, então, virava-se para a avó e segredava-lhe:
— Come tu, anda lá.
A avó não queria.
— Comam vocês — dizia ela, apontando para a filhó e para os filhos.
— Eu já comi muitas — desculpava-se um.
— Também tenho a minha conta — dizia outro.
— Nem mais um bocadinho — declarava um terceiro.
Parecia que nenhum queria tomar a responsabilidade de comer a filhó. No entanto, ela lá estava muito dourada, a recortar-se no meio da calda de açúcar. Apetecia mesmo ver e… comer.
Mas, à volta da mesa, não se decidiam. E a filhó, a última filhó, andava de boca em boca, sem se fixar na boca de ninguém. De oferta em oferta, chegou a vez da tia Luísa propor:
— Os pequenos que comam. Sempre quero ver qual dos meus sobrinhos chega primeiro à filhó.
Os meninos não se precipitaram sobre a filhó apetitosa, como seria de esperar. Cada um ficou à espera do primo ao lado, e o primo ao lado do outro primo ao lado… Fosse por acanhamento ou fosse por que fosse…
— Afinal ninguém a come — observaram do outro extremo da mesa. — Esta filhó deve ser mágica.
Olharam uns para os outros e sorriram.
A ceia estava no fim. Os meninos tinham sono. O avô cabeceava. Começou a ouvir-se o arrastar das cadeiras. Era a debandada.
— Amanhã se arruma a casa — disse a tia Luísa, e apagou a luz da sala de jantar.
Quando todos já se tinham ido embora, a filhó, no lusco-fusco, ao meio da mesa, começou a brilhar. Intensamente. Acreditem ou não, como se tivesse luz dentro. Como um pequeno sol ou um bocadinho de oiro, a desfazer-se em açúcar.

António Torrado

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