‘Amor de mãe é visceral.’*

‘Bom dia, mamã!’
‘Bom dia, filho!’
De olhos fixos nos meus, despeja de uma só vez as dúvidas que ocupam o seu pensamento.
‘Tás feliz, mamã? Não tás ’tiste’ (triste)? Não tás ‘tateada’ ‘ta’ mim?’  (chateada comigo)
‘Estou feliz, filho! Não estou triste, nem chateada!’

Percebo rapidamente que o dia de ontem não foi esquecido.😦

Para ele – O dia de ontem foi duro! Foi-lhe difícil perceber e aceitar que ia passar um dia em casa sem os seus brinquedos e livros. Hoje confirmei isso. Apesar de ter mostrado na hora arrependimento e de ter admitido ‘que se tinha potado (portado) mal’, vi que não foi fácil constatar que as prateleiras, ontem coloridas pelas brincadeiras, estavam hoje vazias! Os olhos ficaram por alguns momentos mais pequeninos, mas não chorou. Disse apenas, em jeito de confirmação ‘hoje não há ‘binquedos’, mamã!’ O meu pequenino está a crescer!❤

Para mim – O dia de ontem foi dificílimo! Tive de tomar esta decisão complicada e não acho que se tratou de um acto de coragem, porque me senti mais ‘medricas’ do que ele, que tinha feito a asneira. Doeu-me o coração, a alma e sei lá mais o quê. Mais ainda, porque o fiz com consciência, friamente, quase sem palavras, de forma assertiva, como se a minha emoção tivesse fugido para parte incerta (um esforço que custa caro, acreditem). Não era a primeira vez que ele deixava a sala naquele estado, mas, o modo displicente e imperturbável com que atirou parte dos objectos para o ar e para o chão, fez-me tomar uma atitude. Uma atitude várias vezes adiada e contornada com as frases costumeiras ‘vamos lá pôr tudo no sítio’, ‘a mãe ajuda’, ‘prometes que não voltas a fazer isto?‘. Desta vez pulei essa teoria e tratei do assunto de forma drástica, a ponto de me sentir a pior mãe do mundo.

Com a ajuda (e cumplicidade) do pai, os brinquedos e os livros foram retirados e arrumados numa caixa e levados para a garagem, tal como lhe disséramos antes. Nós explicámos tudo calmamente, sem alaridos e já sem choro. Meia hora depois estávamos os três sentados no sofá, sem falar. Do nada, ele pede desculpa, por se ter portado mal, por ter deixado os pais tristes. Nós aceitamos as desculpas e dissemos que não falaríamos mais no assunto, mas que, mesmo assim, os brinquedos iriam ficar na garagem. Ele disse que sim, ainda que cabisbaixo. Tenho a certeza que ainda tinha uma pequena esperança que recuássemos na decisão.

Tinha lido *o texto da Carolina, do ‘Família 3 e 1/2′, no dia anterior e as palavras não me saíam da cabeça. Palavras que subscrevera na íntegra e que foram naquele momento uma ajuda preciosa para atenuar a culpa que sentia. “(…) Amor de mãe é lixado! Sentes culpa quando berras, culpa quando não berras, culpa quando dás, culpa quando não dás! Achas sempre que nunca és suficientemente boa, suficientemente justa, suficientemente rígida nem suficientemente altruísta! Amor de mãe é a tua maior dependência, a tua maior dor, a tua melhor alegria, tua melhor prestação, a tua maior frustração e o teu maior milagre!”

Cartoon by Cathy Thorne @ Everyday People Cartoons

10 pensamentos sobre “‘Amor de mãe é visceral.’*

      • Vou-lhe dar um exemplo que mostra em como, com o seu marido, estão a agir corretamente. Dizer “não” é-nos difícil até socialmente. Cada vez mais, infelizmente, a educação no seu todo, é delegada nas escolas. Dada a doença oncológica dos meus pais, ao ser transferido para a “terrinha”, onde estou a apoiar na aplicação do novo programa de mat. do 4.º ano, é abismal o n.º de alunos que consomem Ritalina. Situações que se resolviam com um puxão de orelha são conducentes a esta droga repleta de contraindicações!!! Os meninos , em casa, não ouvem um não.
        Claro, também há o outro lado da moeda: os que são um bocadinho distraídos, e professores sem qualquer formação em biologia, química ou educação especial (com cursos a sério e não dos pagos, feitos em 3 meses ou menos), sentem-se no direito de indicar esta droga aos pais. De início, ainda pensei que a perceção fosse só minha. Ao falar com as farmacêuticas da farmácia que frequento tudo se clarificou. Sorte têm os meninos que dinheiro não têm para comprar este medicamento. Se soubessem o que é um hiperativo…
        Um abraço.

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      • Bom dia, Paulo!
        Antes de mais, lamento imenso a situação dos seus pais. Desejos de rápidas melhoras!

        Como professora que sou, ainda que não no activo, sei muito bem do que fala. Cada vez mais se percebe que, numa grande parte das situações, as crianças são ‘despejadas’ na escola para que esta, para além dos planos curriculares que têm de pôr em prática, substitua o papel dos pais e as eduque nos diferentes estágios da sua vida.
        Para além disso, percebe-se que parece haver cada vez menos capacidade de lidar com personalidades e comportamentos diferentes em contexto de sala de aula e, havendo formas rápidas de contornar isso, procura-se a solução mais fácil (algo que tanto pais, como comunidade escolar fazem com alguma ligeireza, como bem referiu). A hiperactividade é exemplo disso, que, a passos largos, começa a ser a doença de todas as crianças, sejam elas de facto hiperactivas ou tão-somente enérgicos e cheios de vida. O meu filho enquadra-se, pelo menos para já, na segunda hipótese, porque, se consegue estar quieto e sossegado durante 15 minutos a folhear um livro ou a ver algo na televisão, isso significa que ele sabe encontrar momentos de acalmia. Algo mais do que natural numa criança saudável.

        Educar é a mais bonita e difícil responsabilidade de um educador. Como em todas as categorias, há bons e maus professores, bons e maus médicos e, infelizmente, bons e ‘maus’* pais.
        *Não estou a pôr em causa o amor que sentem pelos seus filhos, mas do facto de se desleixarem do seu papel e deseducarem no lugar de educarem.

        Um abraço

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  1. Revejo-me muito nas tuas palavras… Por vezes não é fácil tomar as decisões certas, mesmo quando sabemos que são as certas! Mais difícil ainda quando não sabemos o que é certo fazer e como devemos atuar para que os resultados que queremos perdurem…

    O Rodrigo teve uma atitude de menino já muito crescido com a situação que descreveste. Deves sentir-te orgulhosa dele por estar a crescer🙂 E principalmente deves sentir orgulho em ti por fazeres algo difícil mas necessário para potenciar o seu desenvolvimento intra-pessoal.

    Por aqui, tenho-me debatido com os “chega para lá” dela para connosco quando contrariada em qualquer situação.
    Por vezes, tenho mesmo é dificuldade em discernir qual a posição certa a cada situação… Se hesitamos eles sentem logo a nossa indecisão, se atuamos e verificarmos que nos excedemos também não podemos recuar porque damos ar de fracos ou incoerentes. Enfim… é a tarefa mais difícil e ao mesmo tempo a mais importante das nossas vidas!!!!!

    Beijinhos grandes

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    • É mesmo muito difícil, por vezes, saber qual a atitude a tomar e qual a altura certa para o fazer. Temos de usar o nosso melhor saber como mãe. O instinto de mãe é que nos guia, tenhamos nós a capacidade de o escutar (e sabemos que nem sempre conseguimos porque o ‘barulho exterior’ é mais forte). Para além disso, cada vez mais tenho a certeza que o que serve para uma criança, pode não servir para outra. Não acredito em teorias fixas e infalíveis, nem nos saberes de quem não conhece o MEU filho.

      Tudo de bom para vocês, Sarinha!❤
      Beijinhos nossos*

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      • É assim mesmo que eu penso🙂 O que é certo com uma criança para outra pode não o ser!
        Por isso tantas vezes me custa ler aqueles famosos artigos de psicologos pseudo-famosos que têm receitas para tudo… Por vezes torna-se difícil ouvir coisas como “ah, mas com essa idades, já devia…”.
        O mais importante é estarmos atentas a eles, porque eles sim nos dizem a toda a hora se já estão preparados para fazer as aprendizagens, quer elas sejam aprendizagens emocionais, de comportamento ou simplesmente motoras.
        Imagina tu que quase a completar os 3 anos, só agora é que a minha filha quis começar a beber pelo copo. Nem imaginas quantas vozes alheias tive de ouvir😛
        Conseguiu este mês e não posso estar mais orgulhosa da pequena conquista que fez quando se sentiu preparada😉
        Beijinhos

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      • Infelizmente há sempre quem tenha uma opinião para a forma como se deve educar os filhos dos outros. Quando são pessoas que nunca cuidaram de crianças, ainda dou o chamado ‘desconto’; quando estamos a falar de quem cuida ou já cuidou de outras crianças, não percebo como se atrevem a dizer coisas do género, porque tenho a certeza que há sempre um ponto no crescimento de um filho que terá diferido do tal ‘padrão’. Pior que isso é aperceber-me que algumas dessas ‘vozes alheias’ não se coíbem de proferir opiniões sem qualquer pudor ou compaixão, mesmo que magoem quem está a ouvir e que por vezes está frágil.
        Eu confio cada vez mais no que sinto ser o melhor para o meu filho. Se estiver errada, cá estarei para lidar com as consequências.

        Essas conquistas são maravilhosas e devo dizer-te que aconteceu o mesmo com o Rodrigo. Só aos 3 anos se aventurou a beber sozinho. É muito desenvolto noutras coisas. Até as tenazes sabe usar, vê lá, mas, em contrapartida, não quer largar as fraldas (só de vez em quando e na escola). Imaginas o que eu ouço? Para já ainda não é um problema. Vai ser uma questão de tempo, tenho a certeza.

        Continua a seguir o teu instinto e não deixes que nada se intrometa na forma como educas a tua princesa.

        Beijinhos nossos*

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      • Ui, as fraldas!!! Tem tanto que se lhe diga… Imagino o “barulho” das vozes alheias.
        Por aqui voltamos às fraldas a tempo inteiro (há cerca de 3 meses), quando já estava “desfraldada” de dia desde os 2 anos e pouco. Teve de ser. Tive de “ouvir” com atenção as necessidades dela e dar-lhe a segurança que precisava. Agora resta-me (resta-nos) esperar que ela e o Rodrigo decidam dar o passo em frente. E tudo sem angústias e sem preocupações porque quem é mãe por vezes descobre pretensos problemas onde elas não existem😀
        Beijinhos :*

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