Um tema (de 1992) sempre actual…

1992

Tinha entrado há um ano na faculdade, conhecia gente de todo o país (continente e ilhas), comunicávamos preferencialmente por carta, em algumas casas não havia (ainda) telefone fixo e começava-se a falar de (e por) telemóveis (uns autênticos ‘tijolos’, a bem da verdade). O computador era um aparelho imenso, a que geralmente só tínhamos acesso nas escolas e em casa de amigos ‘mais abonados’. (Acho que nessa altura não sabia sequer onde se ligava um pc e fazia os possíveis para nem tocar, com medo de estragar. Tanta ignorância, meu Deus!) Os trabalhos para entrega eram escritos à mão ou em máquinas de escrever e as pesquisas eram feitas em silêncio em lindas bibliotecas, de onde chegávamos muitas vezes encharcados, por não ficarem tão perto de nós quanto desejávamos e com um calo no dedo, de tanto escrever.
Apanhavam-se autocarros, comboios e camionetas da carreira para ir e vir da faculdade, a não ser que tivéssemos a sorte de arranjar boleia do pai de um amigo. Poucos tinham transporte próprio. Andar a pé fazia parte da nossa rotina e ninguém se queixava.
O dinheiro era pouco ou nenhum, mas ia dando para um café no ‘Encontro’, lá em cima na Rua do Rosário, ou no ‘Café Imagem’ na Torrinha, quando o almoço se fazia numa das cantinas da FEUP. Fui tão feliz na FEUP, sendo da FLUP! Suspiro!
Conversávamos muito! Nos intervalos nas aulas, nos dias sem aulas, ou nas aulas que furávamos. Relembro com saudade o exterior da velha faculdade, onde ficávamos horas ao ar livre a partilhar histórias vividas, outras que se queriam viver e a rascunhar o tempo que havia de vir. Falava-se de tanta coisa. De tudo, de nada. Mas falava-se. O mundo parecia acontecer mais devagar, talvez pela demora em chegar a informação.
Ainda assim, a letra dos Xutos já mostrava o que começava a ser a rotina da falta de tempo e da cultura do ‘ecrã’. Na altura a televisão era a RTP (seria este, aliás, o ano do aparecimento da SIC) e nem se vislumbrava a panóplia de gadgets que vieram ‘desviar’ a atenção de crianças e adultos, alheando-os muitas vezes da realidade.

Chuva dissolvente – Xutos & Pontapés

Entre a chuva dissolvente
No meu caminho de casa
Dou comigo na corrente
Desta gente que se arrasta
Metro, túnel, confusão
Entre suor despertino
Mergulho na solidão
No dia a dia sem destino

Putos que crescem sem se ver
Basta pô-los em frente a televisão
Hão-de um dia se esquecer
Rasgar retratos largar-me a mão
Hão-de um dia se esquecer
Como eu quando cresci
Será que ainda te lembras
Do que fizeram por ti

E o que foi feito de ti
E o que foi feito de mim
E o que foi feito de ti
Já me lembrei, já me esqueci

Quando te livrares do peso
Desse amor que não entendes
Vais sentir uma outra força
Como que uma falta imensa
E quando deres por ti
Entre a chuva dissolvente
És o pai de uma criança
No seu caminho de casa

E o que foi feito de ti
E o que foi feito de mim
E o que foi feito de ti
Já me lembrei, já me lembrei
Já me esqueci

Letra: Tim
Música: Xutos & Pontapés

4 pensamentos sobre “Um tema (de 1992) sempre actual…

      • Não… Eu bem queria fugir para bem longe de Santa Comba Dão mas o meu pai obrigou-me a ficar na ESE de Viseu. Por um lado entendo-o: a dor da perda do 1.º filho, que nasceu portador de deficiência, vivendo 1 ano e 3 meses marcou-o. Embora ainda hoje a minha mãe sofra, em nada interferiu nos estudos. Contudo, com o sonho de ser professor, fosse eu seguir biologia ou matemática do 3.º ciclo e secundário e ainda não seria efetivo. Apenas o 2.º sonho, que ainda hoje confundo com o 1.º (psicologia) me remetia à universidade de Coimbra (detesto a vaidade e rituais associados), Porto ou Lisboa. Em todas entrava. Talvez fosse este o meu caminho dado a educação se ter tornado num sistema empresarial, sem honestidade, no qual quem trabalha é penalizado. Tal é fácil de compreender: quem trabalha tem de criar, inventar, produzir materiais, resolver situações problema com pais e alunos que desgastam. Tal gera cansaço e alguma frustração. Assim, nem sempre se sorri para os senhores(as) diretores(as), não há tempo para graxa (desta sempre senti repúdio), adoecemos e por vezes há que faltar. Quem o não faz, está sempre disponível e sorridente. Crescem as escolas dos “sem princípios”, que valores não transmitem aos jovens. Aliás, na generalidade, nem seguiram “educação” por vocação!
        Felizmente, posso orgulhar-me da minha ESE, ao contrário de muitas outras. Trabalhei 4 anos em educação especial, sem preparação prévia e psicólogo na escola e não me saí nada mal. Difícil mesmo foi deparar-me com casos de violação quando se falava, na televisão, do Processo Casa Pia. Tão diferente no terreno… Quantos nos viram as costas ocupando cargos de destaque e suma importância! Fiz a pós graduação e como diretor de turma continuei a trabalhar com alguns casos complicados, interagindo com diferentes estruturas. Adoro trabalhar ajudando ou dando um sorriso. Não sou um ser bom. Sou mau como todos os humanos. Mas isto é algo que me deixa realizado. Entretanto, a escola foi-se transformando, transformando, transformando…
        Criaram a figura de “diretor” que nada mais é do que alguém com uma pós graduação como a minha, só que em administração escolar! E o prazer tem vindo a tornar-se dissabor.
        Desculpe Carla. Acabei por desabafar perante uma pergunta direta. Precisava de o fazer. Não tinha que ser aqui. Não sei porque o fiz:/

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  1. Não tem de pedir desculpa, Paulo. Se se sente à vontade para partilhar aqui este lado da sua vida, seja muito bem-vindo!
    Infelizmente conheço alguma das realidades que descreveu, seja porque também as vivi, ou porque as conheci nas vidas de amigos da área. Muitos são casais professores, o que pode trazer muitas complicações e pouca qualidade de vida.😦
    Sempre quis ser professora e lutei muito para o conseguir, sempre com a ajuda dos meus pais, que, com tão pouco tanto me deram. Há uns anos, por motivos de saúde e, mais tarde por opção, larguei o ensino. Custou muito tomar essa opção, mas teve mesmo de ser. Não considero que o curso tenha sido em vão, tendo em conta tudo o que apreendi, mas concluo que o ‘ser professor’ perdeu o encanto dos meus tempos de adolescente. É uma classe por vezes desprezada, não acarinhada, raramente apoiada…😦
    Temos em comum o gosto pela psicologia, algo que ainda não pus de parte.

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