*No nosso escritório/lavandaria, enquanto brincava com os legos.
’Rodrigo, vou fazer um telefonema. Podes tentar não fazer barulho, por favor?’ ‘Para quem vais ligar, mamã?’, pergunta curioso. ‘Para uma pessoa, que é amiga da mamã.’
‘Como se chama, mamã?’
‘Chama-se ‘Céu’!’ Fica de olhos arregalados por breves segundos e vem ter comigo a correr. ‘Vais ligar para o céu, mamã?!’
Ainda sorri e de coração apertado fiquei a pensar como isso me faria tão feliz. A inocência das crianças tem imensos poderes! Pena a nossa incapacidade em permanecermos nesse mundo de fantasia por algum tempo.
Gostava tanto, mas tanto, meu amor pequenino, que isso fosse possível! ❤
‘Corzinha de Verão’ ressoa uma sonoridade vintage, num tema que, não sendo sublime, tem uma cadência que convida a ouvir e isso às vezes é tudo o que precisamos!
As palmas ficam para o videoclip, que está extraordinário! Adorei! Parece quase uma paródia aos queixumes dos portugueses; senão, como explicar a estranha presença de cadeiras, toalhas e bolas de praia em pleno Museu Nacional de Arte Antiga? Não é de todo comum ter os Painéis de São Vicente, um símbolo máximo da cultura portuguesa, como pano de fundo de um tema aparentemente simples e bucólico! Numa primeira abordagem, penso que o vídeo confirma uma mensagem subliminar da ‘Corzinha de Verão’. Não me parece que os Deolinda quisessem fazer algo sem grande fundamento, como ‘Os meus óculos de sol’ de Natercia Barreto.
Qual é a vossa opinião?
‘Corzinha de Verão’ – Deolinda
Por que é que o sol nunca brilha quando fico de férias
Aos fins de semana ou nos meus dias de folga?
Eu passo os dias a ver gente em fato de banho
Calções e havaiana e eu sempre de camisola.
E eu andei o ano inteiro a juntar o meu dinheiro
Para esta desilusão.
Dava todo o meu ouro por um pouco do teu bronze e
Uma corzinha de verão
Vento, eu na praia a levar com vento
A rogar pragas e a culpar são Pedro.
Que mal fiz eu ao céu?
E tento, juro que tento imaginar bom tempo
Espalho o protector solar e estendo o corpo no museu.
Por que é que tudo conspira contra a minha vontade?
Sim, sim, é verdade, não estou a ser pessimista.
É que a vizinha da cave é sempre a mais bronzeada
Traz um sorriso na cara e não sabe quem foi Kandinsky.
E eu andei o ano inteiro, a juntar o meu dinheiro
Para esta desilusão.
Dava todo o meu ouro por um pouco do teu bronze
Uma corzinha de verão
Vento, eu na praia a levar com vento
A rogar pragas e a culpar são Pedro.
Que mal fiz eu ao céu?
E tento, juro que tento imaginar bom tempo
Espalho o protector solar e estendo o corpo no museu.
E tento, juro que tento imaginar bom tempo
Espalho o protector solar e estendo o corpo no museu
Enquanto conversávamos, antes de dormir. (algo que aconteceu no início do ano lectivo, mas que só agora resolvi partilhar)
Resolvi falar com o Rodrigo sobre uma pessoa, com quem ele convive diariamente, e que tem uma paralisia muscular (que afecta sobretudo uma das mãos). ‘Já conheceste a C., Rodrigo?’ ‘Sim, mamã! É muito simpática!’
Aproveito e pergunto: ‘Como são as mãos da C.?’(explico já a minha intenção) ‘São cor de pele! Como as minhas, mamã!’
Dei-lhe um enorme abraço e o assunto terminou aqui, até porque a conversa poderia ter o efeito inverso, algo que eu não queria.
Se soubessem como esta resposta me deixou feliz! ❤ Perceber que o meu filho tem contacto, desde cedo, com algumas das realidades ditas ‘diferentes’, daquelas que a sociedade instituiu como normais e constatar que ele reage e parece, para já, aceitar todos os indivíduos com a mesma estima, amizade e amabilidade deixa-me muito, muito orgulhosa!
❤ ❤ ❤