Do ‘Inverno irregular’*

Eu gosto do Inverno, assumo. Gosto de chuva, de preferência vista do lado de dentro, é verdade, mas gosto. Gosto de roupas quentes, de gorros, cachecóis e luvas. Gostava de viver num lugar onde houvesse neve. Acho, no entanto, que o que temos agora parece ser um Inverno pela metade, com imensas variações de temperatura e talvez seja por isso que este ano dou por mim a dizer inúmeras vezes que já não aguento mais este tempo e a queixar-me das maleitas que chegaram com ele. De meados de Dezembro para cá tem sido um tal de faringites, laringites, amigdalites, otites, rinites e sinusites, infecções respiratórias, muiiiita tosse e outras coisas que tais que atacaram os três e nos obrigaram a ficar muito tempo em casa. Já não posso ouvir falar em chá de limão com mel, chá de gengibre, xarope de cenoura, água do mar, horas para o antibiótico, para o anti-histamínico, para as gotas. Ganhei fobia ao termómetro, ao aspirador nasal, ao nebulizador, às mudas de roupa molhada… 😦
Estou a torcer para que esta fase termine o mais rápido possível, porque não há optimismo que aguente. O meu está no limbo!

*Verso do poema [Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável] de Alberto Caeiro

Day 06 | Air (Ar )

ar

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.

Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos

Um poema pelo nascimento de Fernando Pessoa…

Agora que Sinto Amor

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”

Cartoon by Biratan

Da poesia que merece ser lembrada…

Agora que Sinto Amor

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro in “O Pastor Amoroso”

Custa ‘aceitar o natural inevitável’, mas é o melhor caminho a seguir…

 


Foto @ Iamaninjaa

Quando Está Frio no Tempo do Frio

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Alberto Caeiro

A minha tristeza é sossego…

“Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe”

Alberto Caeiro no poema Guardador de Rebanhos

A criança que pensa em fadas – Alberto Caeiro

Foto @ Google

Foto @ Google

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas,
Age como um deus doente, mas como um deus,
Porque embora afirme que existe o que não existe,
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro

Mais um dia de chuva…

Mutts

Mutts

Um Dia de Chuva

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.

Alberto Caeiro