Dos dias de desencanto…

Gosto de pessoas, de (dar e receber) afectos, das palavras (e do poder que elas têm sobre cada um).
Gosto de gente que gosta de gostar dos outros.
Gosto de gente que luta e se desunha por um sonho.
Gosto de gente que escuta o outro e que quer crescer por dentro.
Gosto de gente que, mesmo com pouca escolaridade, soube ou sabe ser sábia, curiosa, astuta e ávida de conhecimento.
Gosto de gente simples, mas educada, que, mesmo sem ‘um canudo’, sabe ser o melhor ser humano do mundo.

A idade e ‘o saber’ que ela me trouxe mostraram-me que o ser humano precisa muito mais que uma formação académica, o acesso fácil à cultura ou de capacidade financeira para conseguir tudo isto. Porque o mais importante não se ensina, não se oferece, não se compra. Bom carácter, valores humanos, delicadeza, generosidade… Ou se tem, ou não se tem.

De vez em quando, com muita pena minha, ‘esbarro’ com gente que não se rege por este modo de estar na vida e que prefere viver com a cabeça enfiada na areia ou entre duas orelhas. Gente que não quer sequer olhar para o lado. Nessas alturas lembro-me sempre deste tema fabuloso do Tê e do Rui Veloso.

Hoje foi um desses dias… 😦

A Gente Não Lê
Ai, Senhor das Furnas,
 Que escuro vai dentro de nós.
 Rezar o terço ao fim da tarde
 Só para espantar a solidão.
 Rogar a Deus que nos guarde,
 Confiar-lhe o destino na mão
Que adianta saber as marés,
 Os frutos e as sementeiras,
 Tratar por tu os ofícios,
 Entender o suão e os animais,
 Falar o dialecto da terra,
 Conhecer-lhe o corpo pelos sinais?
E do resto entender mal,
 Soletrar assinar em cruz,
 Não ver os vultos furtivos,
 Que nos tramam por trás da luz.
Ai, Senhor das Furnas,
 Que escuro vai dentro de nós.
 A gente morre logo ao nascer
 Com olhos rasos de lezíria.
 De boca em boca passar o saber,
 Com os provérbios que ficam na gíria.
De que nos vale esta pureza,
 Sem ler fica-se pederneira.
 Agita-se a solidão cá no fundo,
 Fica-se sentado à soleira,
 A ouvir os ruídos do mundo
 E a entendê-los à nossa maneira.
Carregar a superstição
 De ser pequeno ser ninguém
 E não quebrar a tradição
 Que dos nossos avós já vem.
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Porque o lado solar é sempre mais fugaz…

ironia

Foto daqui

A foto é esclarecedora! Todos fazemos um pouco este juízo, em relação a quem não conhecemos! Esquecemos que TODOS (sem excepção) possuem um “túnel secreto a loja de horrores / A arca escondida debaixo do chão”, como escreveu o Carlos Tê e canta o Rui Veloso no maravilhoso ‘Lado Lunar’!
Por isso, não se afastem do que importa. Valorizem quem realmente conhecem, porque serão esses que estarão sempre por perto! ❤

Bom Domingo!

‘Toda a alma tem uma face negra’*

Não gasto muito do meu tempo nem espaço de escrita a partilhar momentos menos agradáveis, o que corre menos bem no meu dia-a-dia, ou a mostrar a minha versão pessimista, por muito que essas realidades existam e façam mossa na alma ou na pele. Sinto-as, tento perceber o que está por detrás e ultrapassar, sendo que por vezes isso só acontece depois de chorar e questionar, é certo! Quando as situações me tocam directamente, tento ao máximo que a mágoa e a tristeza se dissipem rapidamente, para mais facilmente ‘significar’ as coisas e conseguir  ver o outro lado da questão, porque esse existe quase SEMPRE.
Podia fazer longos e descritivos posts sobre as imensas dúvidas hipocondríacas que povoam inúmeras vezes a minha cabeça e confundem o ‘Tico e o Teco’ cá do sítio, contar as desilusões com a sociedade e com o meu ‘eu’ (porque também as tenho), bem como com aqueles  que considerei, até um certo dia, habitantes do meu mundo de afectos e falar de tantas outras coisas que mudariam aquilo que eu sempre idealizei para este espaço: um encontro de coisas bonitas, não para camuflar o lado negro que sei que existe, mas para demonstrar o que eu faço para contrariar a lado lunar do meu mundo. Primeiro porque não gosto de o mostrar e segundo, porque, nessas alturas, a escrita revela-se uma verdadeira inimiga.

Mas hoje quase que saía um post desses, bem amargurado, cheio de lamúrias e de desaires. Foi uma semana difícil, às vezes complicada, com momentos menos bons que consegui gerir com alguma dificuldade, mas, apesar do desabafo, ficou apenas por isto: umas linhas que pretendem mostrar que, apesar de tudo, me levantei e que amanhã anseio por um novo dia, que espero que seja M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!!!

* verso da música ‘Lado Lunar’ de Carlos Tê e Rui Veloso

Palavras que dizem tanto…


Todo o tempo do MundoRui Veloso

Podes vir a qualquer hora
Cá estarei para te ouvir
O que tenho para fazer
Posso fazer a seguir

Podes vir quando quiseres
Já fui onde tinha de ir
Resolvi os compromissos
Agora só te quero ouvir

Podes-me interromper
e contar a tua história
Do dia que aconteceu
A tua pequena glória
O teu pequeno troféu

Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo

Houve um tempo em que julguei
Que o valor do que fazia
Era tal que se eu parasse
O mundo à volta ruía

E tu vinhas e falavas
Falavas e eu não ouvia
E depois já nem falavas
E eu já mal te conhecia

Agora em tudo o que faço
O tempo é tão relativo
Podes vir por um abraço
Podes vir sem ter motivo
Tens em mim o teu espaço

Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo

Pequena Dor – Rui Veloso

Adoro este tema dos Cabeças no Ar, sobretudo da letra do genial Carlos Tê! Falar da dor não é fácil, seja ela pequena ou grande. Conseguir com esta simplicidade e singeleza é ainda mais raro!

Pequena Dor – Cabeças no Ar

A tua pequena dor
Quase nem sequer te dói
É só um ligeiro ardor
Que não mata mas que mói

É uma dor pequenina
Quase como se não fosse
E como uma tangerina
Tem um sumo agridoce

De onde vem essa dor
Se a causa não se vê
Se não é por desamor
Então é uma dor de quê?

Não exponhas essa dor
É preciosa é só tua
Não a mostres tem pudor
É o lado oculto da lua

Não é vicio nem costume
Deve ser inquietação
Não há nada que a arrume
Dentro do teu coração

Talvez seja a dor de ser
Só a sente quem a tem
Ou será a dor de ver
A dor de ir mais além

Certo é ser a dor de quem
Não se dá por satisfeito
Não a mates guarda-a bem
Guardada no fundo do peito!

A vida só se dá pra’ quem se deu…

Tenho vivido nos últimos dias grandes momentos de nostalgia, graças ao Encontro de Antigos Alunos de Letras da Universidade do Porto, que se realizou no Parque da Cidade do Porto no passado Sábado. Reencontrar pessoas queridas, que não via há imensos anos, transportou-me novamente para as inúmeras memórias de há 20 anos atrás. Sim, entrei na FLUP há 19 anos e nunca pensei que regressar ao passado soubesse tão bem! Por incrível que pareça, contrariei a minha máxima “Nunca voltes ao lugar onde foste feliz”, pus em causa “As Regras da Sensatez” do Carlos Tê e do Rui Veloso e percebi que felizmente para toda a regra há excepção e esta foi uma linda e maravilhosa excepção. 🙂

Como diz o Vinicius e bem “A vida só se dá pra’ quem se deu” e só quem vive cada momento intensamente terá uma história para contar. Em jeito de ‘homenagem’ e de desfecho deste ciclo, dedico este post a todos os que transformaram o dia de Sábado num dos dias mais felizes da minha vida. Obrigada a todos!

Como dizia o poeta

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não

Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

Vinicius de Moraes in Poesia completa e Prosa: “Cancioneiro”

Playlist de Natal III

Hoje o Natal é cantado em português, numa música do Rui Veloso que lembra que se trata de uma altura do ano, que infelizmente não é igual para todos. A mensagem subliminar de Carlos Tê é comovente, mas algo dolorosa de aceitar!

Lembrem-se que, se quisermos, podemos fazer sempre alguma coisa para mudar o Natal de alguém.

A C. “ofereceu-me” hoje estas palavras e eu não resisti em partilhá-las no meu cantinho. Obrigada!

PRESÉPIO DE LATA
Carlos Tê / Rui Veloso

Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbedo julgando-se César
Faz um discurso solene

Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se as gazuas
Corre o cavalo nas veias

Há uma luz na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data

A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes

E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells

in álbum “Avenidas” (1998)

Hoje não me recomendo…

Há dias assim… cheios de névoa. Mas, tal como diz a canção, “amanhã já passa”.

Não queiras saber de mim
Carlos Tê / Rui Veloso

Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim

Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo

Mas tu pões esse vestido
E voas até ao topo
E fumas do meu cigarro
E bebes do meu copo
Mas nem isso faz sentido
Só agrava o meu estado
Quanto mais brilha a tua luz
Mais eu fico apagado

Dança tu que eu fico assim
Porque eu estou que não me entendo
Não queiras saber de mim
Hoje não me recomendo

Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim

Hoje lembrei-me desta música…

Saiu Para a Rua – Rui Veloso c/ Sara Tavares –

Saiu decidida para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura

Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho

Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão

Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura

Saiu para a rua insegura
Vagueou sem direcção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura

                                                                                                                    Letra Carlos Tê
                                                                                                                    MúsicaRui Veloso
ArranjoMário Barreiros