Da inocência pura que revivemos nos mais pequenos e que a vida (naturalmente) nos ‘vai roubando’…

❤ Para o meu amor pequenino! ❤

Música: Sivuca
Letra: Chico Buarque [1977]

João e Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinés

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim

Viver a vida como ela é…

Robin: Ted, the future is scary. But you can’t just run back to the past because it’s familiar. Yes, it’s tempting… 
Barney: But it’s a mistake.

HIMYM – Season 6, Ep. 24

É bem mais fácil viver agarrado ao que que se conhece desde sempre, e que sabemos que funciona.
É bem mais fácil não sair daquele trajecto que, à partida, não nos trará surpresas. Caminhar serenamente a par da rotina, sem sair da zona de conforto.
É bem mais fácil pensar que temos sempre tudo sob controle.
No entanto, eu chamo a isto sobreviver, não viver!
Não critico quem prefere viver assim, se isso o consegue fazer feliz. Se eu já pensei assim!

Esforço-me diariamente para não caminhar nessa estrada, para ‘não ouvir essa canção’!
Tenho aprendido que a vida pode construir-se de modo diferente mas igualmente desafiante. Porque, por muito que se queira, é quase impossível existirmos de forma plena num compasso feliz e utópico, de expectativas perfeitamente superadas, de mundo colorido e ‘arrumado’. Eu sei que assim não sou feliz… Já ‘vivi’ nesse mundo e caí imensas vezes. Não me queixo! Pelo contrário. Agradeço a queda! Agradeço o desconforto! Agradeço a indefinição e a incerteza do caminho! Foram estes desvios que me ensinaram o caminho de volta, a recuperar o tempo que perdi a sobreviver! Percebi que o percurso faz-se assim mesmo… de arrelias e alegrias, de contrariedades e de conquistas, de quedas e recuperações, de momentos pouco felizes e de outros que nos enchem as medidas. Na maioria das vezes é no limbo entre as duas acções opostas que nós crescemos (mesmo que não percebamos isso na altura).

O que mais quero é viver a vida como ela é e, como dizem os Skank…
‘deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser’.

Cada vez mais ‘exigente’ em relação ao meu mundo de afectos…

Um pequeno mundo em quantidade, mas, ainda assim, grande o suficiente em qualidade para me fazer imensamente feliz! ❤ A idade também nos traz esta capacidade de separar o ‘trigo do joio’. E, por isso, reitero:

“Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa”


Live @ Programa Radiola na TV Cultura
Letra e música: Lenine/Dudu Falcão
 in álbum ‘Labiata’ (2008)

Será coragem a tremura do medo?

Vertigem – Mafalda Veiga

Haverá luz sugada no escuro?
Será calor o murmúrio do frio?
Terá amor o avesso da vida?
Haverá sonhos no fundo da dor?

Serão gritos os cais do silêncio?
Será coragem a tremura do medo?
Haverá chuva que lave este sangue
E deixe que a terra acalme devagar

Esquece o medo
Sai do escuro
Abre comportas
Deixa gritar
Vai mais fundo
Persegue o mar
Persegue o mar

Será só a vertigem do abismo?
Será mordaça a leveza do pó?
Haverá negro sugado na luz?
Haverá longe por dentro de nós?

Ando sobre uma aresta de gelo
Na vertigem de um trapézio de fogo
Mas canta-me um pouco na tempestade
Canta-me um pouco na tempestade
E deixa que a terra acalme devagar

Esquece o medo
Sai do escuro
Abre comportas
Deixa gritar
Vai mais fundo
Persegue o mar
Persegue o mar

*Este tema, especialmente as palavras que o tornam tão maravilhoso (pelo menos para mim) devem estar algures noutro post deste blog. Porque volto a elas inúmeras vezes, porque me fazem bem, porque que me ajudam a a esboçar o caminho a seguir ou tão-somente a pôr os pontos nos ‘is’, que por vezes me atormentam. Para muitos pode parecer patético, mas não para mim.

Cada qual faz o melhor para se insurgir contra o medo que os desfoca da vida!

‘Cansada’: dar voz aos gritos mudos das vítimas de violência doméstica


Vozes: Aldina Duarte | Ana Bacalhau | Cuca Roseta | Gisela João
Manuela Azevedo | Marta Hugon | Rita Redshoes | Selma Uamusse

‘Cansada’ – Rodrigo Guedes de Carvalho

Estou cansada –  ainda agora chorei tanto
Outra noite –  o terror andou à solta
Vai e volta e promete que não volta
Vai e volta e promete que não volta

Estou cansada  – chorei tanto outra vez 
Outra vez a pensar que hoje talvez
Haja paz –  que o terror só vai não volta
Que a tua mão não se fecha contra mim

Estou cansada – não há fim nesta demência
Ou ciência que preveja que me mates
E quem bate depois chora e promete
Que não mais a mão se levanta fechada

Estou cansada – acho que não quero nada
Que não seja uma noite descansada
Sem ter medo ou chorar na almofada
Sem pensar no amor como uma espada

Tão cansada de remar contra a maré
O amor não é andar a pé na noite escura
Sempre segura que a tortura me espera
Insegura tão desfeita humilhada

Tão cansada de não dar luta à matança
À dança negra que me dizes que é amor
Que não concebes a tua vida sem mim
E que isto assim é normal numa paixão

E eu cansada nem sequer digo que não
Já não consigo que uma palavra te trave
Não tenho nada que não seja só pavor
Talvez o amor me espere noutra estrada
Mas tão cansada não consigo procurá-la
Já tão sem força de tentar não ser escrava
Já sei que hoje fico suspensa outra vez
Outra vez a pensar que hoje talvez…

Não se consegue ficar indiferente a esta campanha da APAV! Bastou-me ouvir o tema uma única vez, para que a palavra ‘cansada’ ganhasse uma nova dimensão no meu ser e me obrigasse no futuro a repensar no seu uso, quando ousar dizer que ‘estou cansada’. Tão triste e tão duro o modo de (sobre)viver de tantas e tantas vítimas em Portugal! 😦
Num registo quase cinematográfico, a fazer jus a uma notável peça musical, emergem as vozes de oito mulheres das sombras dos seus corpos, que se vislumbram ‘incompletos’ na penumbra. Mantêm-se sempre a meia luz, numa metáfora, certamente pensada, da história comum a muitas vítimas de violência doméstica. Mulheres que se escondem da luz do dia, da própria vida e (sobre)vivem num lusco-fusco sufocante de onde, por vezes, não sabem sair. As palavras são claras, genuínas e leais à dor de quem sofre, e em todas elas transpiram os gritos, por vezes mudos, de tantas mulheres que padecem deste tormento.
As cantoras protagonistas estão sublimes! Ainda assim, tenho de destacar Ana Bacalhau, que me deixou desconfortável – tão boa que é a sua interpretação – pela postura, pelo registo, pelo semblante sofrido. Chega a custar ver!
A ficha técnica (ver aqui) é igualmente soberba. Rodrigo Guedes de Carvalho criou a letra e a música do tema e juntou-se a outros elementos que vieram engrandecer a intenção de um hino que consciencialize um país para um problema que, por muito que ainda o queiram estereotipar, estende-se a todas as classe sociais. Um problema que é de todos, não só das vítimas. É de cada cidadão! Não podemos fechar os olhos, quando actos desumanos acontecem debaixo do nosso nariz!
Num país, onde a maior percentagem de casos de violência doméstica se concentra nas mulheres, era urgente voltar a falar no assunto. Convém, ainda assim , referir que esta calamidade atinge, em proporção inferior mas igualmente dolorosa, homens e que urge também falar do assunto.

Duas notas de rodapé (opinião pessoal, claro):
– Ana Bacalhau deveria tentar a representação.
– Rita Redshoes fica maravilhosa a cantar em português (apesar de achar que cada qual deve cantar na língua que entende).

Um tema (de 1992) sempre actual…

1992

Tinha entrado há um ano na faculdade, conhecia gente de todo o país (continente e ilhas), comunicávamos preferencialmente por carta, em algumas casas não havia (ainda) telefone fixo e começava-se a falar de (e por) telemóveis (uns autênticos ‘tijolos’, a bem da verdade). O computador era um aparelho imenso, a que geralmente só tínhamos acesso nas escolas e em casa de amigos ‘mais abonados’. (Acho que nessa altura não sabia sequer onde se ligava um pc e fazia os possíveis para nem tocar, com medo de estragar. Tanta ignorância, meu Deus!) Os trabalhos para entrega eram escritos à mão ou em máquinas de escrever e as pesquisas eram feitas em silêncio em lindas bibliotecas, de onde chegávamos muitas vezes encharcados, por não ficarem tão perto de nós quanto desejávamos e com um calo no dedo, de tanto escrever.
Apanhavam-se autocarros, comboios e camionetas da carreira para ir e vir da faculdade, a não ser que tivéssemos a sorte de arranjar boleia do pai de um amigo. Poucos tinham transporte próprio. Andar a pé fazia parte da nossa rotina e ninguém se queixava.
O dinheiro era pouco ou nenhum, mas ia dando para um café no ‘Encontro’, lá em cima na Rua do Rosário, ou no ‘Café Imagem’ na Torrinha, quando o almoço se fazia numa das cantinas da FEUP. Fui tão feliz na FEUP, sendo da FLUP! Suspiro!
Conversávamos muito! Nos intervalos nas aulas, nos dias sem aulas, ou nas aulas que furávamos. Relembro com saudade o exterior da velha faculdade, onde ficávamos horas ao ar livre a partilhar histórias vividas, outras que se queriam viver e a rascunhar o tempo que havia de vir. Falava-se de tanta coisa. De tudo, de nada. Mas falava-se. O mundo parecia acontecer mais devagar, talvez pela demora em chegar a informação.
Ainda assim, a letra dos Xutos já mostrava o que começava a ser a rotina da falta de tempo e da cultura do ‘ecrã’. Na altura a televisão era a RTP (seria este, aliás, o ano do aparecimento da SIC) e nem se vislumbrava a panóplia de gadgets que vieram ‘desviar’ a atenção de crianças e adultos, alheando-os muitas vezes da realidade.

Chuva dissolvente – Xutos & Pontapés

Entre a chuva dissolvente
No meu caminho de casa
Dou comigo na corrente
Desta gente que se arrasta
Metro, túnel, confusão
Entre suor despertino
Mergulho na solidão
No dia a dia sem destino

Putos que crescem sem se ver
Basta pô-los em frente a televisão
Hão-de um dia se esquecer
Rasgar retratos largar-me a mão
Hão-de um dia se esquecer
Como eu quando cresci
Será que ainda te lembras
Do que fizeram por ti

E o que foi feito de ti
E o que foi feito de mim
E o que foi feito de ti
Já me lembrei, já me esqueci

Quando te livrares do peso
Desse amor que não entendes
Vais sentir uma outra força
Como que uma falta imensa
E quando deres por ti
Entre a chuva dissolvente
És o pai de uma criança
No seu caminho de casa

E o que foi feito de ti
E o que foi feito de mim
E o que foi feito de ti
Já me lembrei, já me lembrei
Já me esqueci

Letra: Tim
Música: Xutos & Pontapés

I See A Darkness – Johnny Cash

(…) Well, you know I have a love, a love for everyone I know.
And you know I have a drive to live, I won’t let go.
But can you see this opposition comes rising up sometimes?
That it’s dreadful imposition, comes blacking in my mind.

And that I see a darkness.
And that I see a darkness.
And that I see a darkness.
Did you know how much I love you?
Is a hope that somehow you,
Can save me from this darkness (…)

Dos acasos felizes que inundam a alma e dão cor a dias menos bons…

Ou de como um tema lindo, cantado de forma excepcional, envolvido num vídeo tão ‘castiço’, se tornou num verdadeiro doce para um Novembro que foi em tempos ‘o mês’ e que há um ano perdeu cor. Obrigada à música, que me salva tantas vezes! ❤

Pica do 7′António Zambujo

De manhã cedinho
Eu salto do ninho e vou para a paragem
De bandolete à espera do sete
mas não pela viagem

Eu bem que não queria
mas um certo dia eu vi-o passar
E o meu peito céptico
por um pica de eléctrico voltou a sonhar

A cada repique
que soa do clique daquele alicate
Num modo frenético
o peito céptico toca a rebate

Se o trem descarrila o povo refila e eu fico num sino
Pois um mero trajecto no meu caso concreto é já o destino

Ninguém acredita no estado em que fica o meu coração
Quando o sete me apanha
Até acho que a senha me salta da mão
Pois na carreira desta vida vã
Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá

Que triste fadário e que itinerário tão infeliz
Cruzar meu horário com o de um funcionário de um trem da carris
Se eu lhe perguntasse
se tem livre passe para o peito de alguém
Vá-se lá saber talvez eu lhe oblitere o peito também

Ninguém acredita no estado em que fica o meu coração
Quando o sete me apanha
Até acho que a senha me salta da mão
Pois na carreira desta vida vã
Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá

Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá

Letra e Música: Miguel Araújo

‘Nha Cretcheu’

Nha Cretcheu – Sara Tavares

Sair à rua com uma sede imensa
De te esquecer
Sentar-me num lugar com indiferença
Por não te ver
E de repente sei que é isto que eu não quero
Olhar à volta e saber que ainda te espero
Sentir a sensação de quem não está no seu lugar
Não quero lá estar
Assim…

Nha Cretcheu
Nha Cretcheu
Nha Cretcheu
Nha Cretcheu

Voltar a casa com um sentimento
De solidão
Fingir que estás no pensamento
Sem razão
E de repente sei que é isto que eu não quero
Voltar a casa e saber que ainda te espero
Fazer de conta que eu já estou no meu lugar
Não quero lá estar
Assim…

Nha Cretcheu
Nha Cretcheu
Nha Cretcheu
Nha Cretcheu

Nha Cretcheu…

Da vontade de não querer ‘o que basta’…

 … porque ‘o que basta’ é pequenino, circunscrito, amedrontado. É (sobre)viver de migalhas do imenso que podemos conquistar.
Porque merecemos muito mais, porque há sempre mundos novos para desbravar. Importa querer e fazer acontecer. Abandonar amparos, sacudir o medo em excesso, aceitar que somos capazes de mudar. Só com balanço (ou mesmo ‘sacudidelas’) a vida poderá retribuir ‘o que falta’ em cada um de nós.
Não querer ‘o que basta’ poderá ser, ainda assim, um bom princípio! 

‘Tava Na Tua’ – Luiz Caracol c/ Sara Tavares

Despertei em graça
No meio da praça
E de um só momento
Eu fiz um momento

Procurei-te norte e sul
Todo o mapa mundo
Inventei-te e encontrei-te a cada segundo

Por querer mais, por querer tanto
Ao que é de mais, ao que é espanto

Saí daqui, subi á lua, sempre atrás de ti
Cobri o céu, tava na tua e..
Saí daqui, subí á lua, sempre atrás de ti
Cobri o céu, tava na tua e não resisti

Eu tava na tua

Ao som dos teus passos
Levantei os braços
Desci a ladeira
Sacudi poeira

Por querer mais, por querer tanto
Ao que é de mais, ao que é espanto

Saí daqui, subi á lua, sempre atrás de ti
Cobri o céu, tava na tue e..
Saí daqui, subí á lua, sempre atrás de ti
Cobri o céu, tava na tua e não resisti