‘Para isso fomos feitos’…

Ai, como sou feliz a ler (e ouvir) quem sabe usar as palavras! É um verdadeiro privilégio!

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Poema de Natal de Vinicius de Moraes, 1946

E por hoje termino o dia com estas palavras e sons na alma…

“Horas, minutos, instantes, desta vida
Seguem a ordem austera, com rigor
Ninguem se agarre à quimera, sem valor
Do que o destino encaminha, e não é novo
Pois por morrer uma andorinha, sem amor
Não acaba a primavera, diz o povo”

“Por Morrer Uma Andorinha” – Carlos do Carmo & Camané

António Ramos Rosa [1924-2013]*

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.

António Ramos Rosa, Sobre o Rosto da Terra

 

*Notícias que me deixam muito triste!

 

‘Que coisa linda que os filhos são!’

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Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

‘Poema Enjoadinho’ de Vinicius de Moraes (daqui)

Porque cada segundo é precioso…

Como se tivesse todo o tempo, não
se lembra do tempo que foi, nem pensa no que
há-de vir. O tempo é a mesa vazia onde
nada cabe, como se estivesse cheia; e
entre passado e futuro as sombras
alargam-se pelo chão, desenhando
a escadaria por onde desceu, até
hoje, numa incerteza de passos
infalíveis.

Nuno Júdice

Desistir? Nunca!

“Leve como uma pluma, alta como uma torre, quente como um ninho e doce como o mel, assim imaginei desde pequenina a minha casa. Mais tarde, quando me encontrei só no mundo, como não tinha dinheiro, resolvi construí-la com as próprias mãos, fiz primeiro a casa de papel que era material barato, assim que ficou pronta vieram todos os ventos da terra e levaram a minha casa de papel, leve como uma pluma. Fiquei sem casa, mas não desisti. Pensei muito e fiz então a minha casa à beira mar, com areia da praia, que é também material barato, mal estava pronta, vieram todas as marés do mundo e levaram a minha casa de areia, alta como uma torre. Deu-me vontade de desistir, mas precisava de uma casa e sobretudo, não podia desistir do meu sonho. Resolvi fazer uma casa de madeira, cortei-a dos bosques com as próprias mãos, ficou linda, escondida entre a folhagem, mas ainda mal a tinha acabado, veio fogo do céu e queimou a minha casa de madeira, quente como um ninho. Chorei sobre as cinzas como se chora uma pessoa querida que morreu mas mesmo assim não desisti. Pensei muito, e resolvi fazer a minha casa de açúcar – De açúcar? Mas açúcar não é um material barato! – Pois não! Mas eu precisava de uma casa, e sobretudo não podia desistir do meu sonho, não acham? Trabalhei, lutei, passei fome para juntar todo o açúcar necessário e quando a minha casa estava pronta – eram de açúcar as paredes, o chão, o tecto, os móveis, as portas e as janelas, vieram todos os bichos da terra e devoraram a minha casa de açúcar, doce como o mel. Fiquei sem casa. E desisti de a construir com as próprias mãos.
– E onde mora?
– Onde moro eu? Sei lá! Vou pelo mundo. Aqui, além, no bosque, à beira mar
– Então não tem casa?!
– Tenho, sim! Eu podia lá desistir do meu sonho!?
Resolvi imaginá-la num sítio onde não chega o vento, nem o mar, nem o fogo, nem os bichos da terra, fiz a minha casa com o meu próprio sonho, ficou linda! Leve como uma pluma! Alta como uma torre! Quente como um ninho! Doce como o mel…”

Ricardo Alberty (daqui)

Um poema, em jeito de parabéns, a um poeta que gosto muito de ler…

Parabéns, Nuno Júdice, por este prestigiado prémio. ‘As palavras’ agradecem!

Greve

Calma, diz o poema ao poeta
que quer fazer uma greve:
as rimas circulam na gaveta,
e o verso é de quem o escreve.

Pode esgotar-se a inspiração,
ou subir na bolsa a métrica,
que as metáforas têm mão
nesta fórmula geométrica.

É redonda a linguagem
no quadrado que elas inventam;
e nasce uma nova imagem
de cada vez que as acorrentam.

Nuno Júdice – poema daqui

Aconteceu…

Enquanto ouvia este admirável tema de Massenet, interpretado por Yo-Yo Ma, (re)encontrei estas palavras. Se estivermos atentos, o universo mostra-nos conjugações maravilhosas e distintas e podemos ter momentos de rara clarividência.

Day 06 | Air (Ar )

ar

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.

Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos

Vale a pena pensar nisto…

… porque ninguém sobrevive sozinho, pelo menos não ‘nesta selva’.

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