Do ‘Inverno irregular’*

Eu gosto do Inverno, assumo. Gosto de chuva, de preferência vista do lado de dentro, é verdade, mas gosto. Gosto de roupas quentes, de gorros, cachecóis e luvas. Gostava de viver num lugar onde houvesse neve. Acho, no entanto, que o que temos agora parece ser um Inverno pela metade, com imensas variações de temperatura e talvez seja por isso que este ano dou por mim a dizer inúmeras vezes que já não aguento mais este tempo e a queixar-me das maleitas que chegaram com ele. De meados de Dezembro para cá tem sido um tal de faringites, laringites, amigdalites, otites, rinites e sinusites, infecções respiratórias, muiiiita tosse e outras coisas que tais que atacaram os três e nos obrigaram a ficar muito tempo em casa. Já não posso ouvir falar em chá de limão com mel, chá de gengibre, xarope de cenoura, água do mar, horas para o antibiótico, para o anti-histamínico, para as gotas. Ganhei fobia ao termómetro, ao aspirador nasal, ao nebulizador, às mudas de roupa molhada… 😦
Estou a torcer para que esta fase termine o mais rápido possível, porque não há optimismo que aguente. O meu está no limbo!

*Verso do poema [Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável] de Alberto Caeiro

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Um dos meus mantras…

Foto @ Pinterest

Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar*

Coisa mais linda!!! 

* frase de Fernando Pessoa

Aconteceu…

Enquanto ouvia este admirável tema de Massenet, interpretado por Yo-Yo Ma, (re)encontrei estas palavras. Se estivermos atentos, o universo mostra-nos conjugações maravilhosas e distintas e podemos ter momentos de rara clarividência.

Fernando Pessoa parece ter sempre as palavras certas para tudo…

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca da nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.

Fernando Pessoa, in ‘O Livro do Desassossego’

Um poema pelo nascimento de Fernando Pessoa…

Agora que Sinto Amor

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”

Cartoon by Biratan

A poesia da imobilidade…

Whoopi Goldberg

Foto by Annie Leibovitz @ Vanity Fair (1984)

“Qualquer indivíduo é ao mesmo tempo indivíduo e humano: difere de todos os outros e parece-se com todos os outros.”

Fernando Pessoa in Ideias Estéticas da Arte

Da poesia que merece ser lembrada…

Agora que Sinto Amor

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro in “O Pastor Amoroso”

Saber dizer poesia é um talento de poucos…

… mas nunca pensei assistir a um destes momentos num programa de televisão e, menos ainda, na voz de um jovem de 17 anos. São poucos os jovens que gostam de ler, nós sabemos. Os que lêem e gostam de poesia são ainda menos. Adorava não ficar espantada, mas, tendo em conta a actual apatia cultural do nosso país, isto foi, de facto, uma bela lufada de ar fresco.
Deixo-vos o vídeo de Guilherme Gomes e o poema de Álvaro de Campos.

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

Se eu podia viver sem chocolate?

Acho que não! 🙂
De qualquer forma, há que moderar a quantidade depois de uma época tão farta. Só posso prometer que me vou tentar controlar.

Foto @ Tumblr

Chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!

Álvaro de Campos in Tabacaria